“O começo de bem viver é bem ouvir”
“Se souberes ouvir, hás de tirar proveito até dos que falam mal”
Plutarco
Era “normal” diziam os velhos amigos. Tadeu como poucos teve uma infância tranqüila, filho de um grande empresário do ramo de pneus, sempre tivera tudo o que um garoto poderia querer ou precisar. E não era por falta de Deus dizia sua mãe, que continuava com suas promessas cada vez mais freqüentes para que o filho tomasse consciência da falta de sentido daquilo tudo. Os irmãos também não entendiam como chegara aquele ponto. O pai atribuía a culpa aos livros de filosofia e as músicas tristes do Renato Russo e do Antony and the Johnsons.
O caso começou quando ele simplesmente parou de falar, assim do nada, cessaram-se as palavras. Todos pensaram que aquilo não iria durar e tratavam como piada, mas depois de um tempo a piada perdeu a graça.
Tadeu tentou manter sua rotina, casa-escola-namorada-amigos.
Em casa fazia todas as refeições, cumpria os mandos da mãe e até arrumava o quarto, mas tudo em silêncio, não perguntava nem respondia perguntas. Por mais que gritassem solicitando uma palavra sua, nada se ouvia. Quase não mudava a expressão do rosto, a única coisa que podiam notar em sua face era o brilho dos olhos que às vezes vacilava.
Na escola cumpria todos os deveres que não necessitassem da fala. Acabava passando nas disciplinas, visto que se esforçava para tirar a nota máxima nas provas e não precisar da pontuação dos trabalhos em grupo.
Seu namoro não durou muito. Como poderia ela namorar alguém que não falava. Que antes, durante ou depois da gozada nada exprimia. Por mais que ela falasse suficiente pelos dois, ainda assim o deixou.
Tentou continuar a andar com os amigos, gostava de estar na companhia dos mesmos, mas por fim acabaram por abandona-o, excluindo-o do grupo. Como poderiam ser amigos de alguém que mesmo presente não expressava opinião e não ria de suas piadas, mesmo as com graça.
Tadeu tornava-se assunto quando saía na rua. Por um tempo foi motivo de chacota, risos para parentes e vizinhos, até que depois acabou como “o rapaz que tinha desaprendido a falar” ou para outros como “aquele que tinha adquirido algum vírus novo ainda sem cura” e assim era alvo de olhares de estranhamento e pena.
Para Tadeu as palavras não haviam acabado.
Compreendera que apesar de tudo o que tinha, fazia ou com quem convivia, ainda sim, carregava a solidão. Muitos até poderiam dizer que era um tipo de depressão, como os médicos haviam atestado, mas ele compreendera que aquele sentimento era a cada dia agravado pelas palavras e toda poluição sonora dentro e fora dele. Percebera que quanto menos falava, mais compreendia o mundo e sentia-se parte dele. Quanto mais escutava mais se despia de seus preconceitos, suas verdades incontestáveis, suas certezas, para se colocar no lugar do outro. Quanto mais deixava de ouvir e verdadeiramente escutava, mais amava o próximo como a si mesmo.
E por isso ele não se importava de ser incompreendido e até tachado de louco, ele estava satisfeito com o encontro que o escutar lhe proporcionava.
Ele estava feliz por esvaziar-se e mesmo assim sentir-se completo, preenchido pelo mundo, pelo outro.
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E você, sabe escutar?
Ou é daqueles que só sabe falar como se o mundo tivesse obrigação de te ouvir?
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