domingo fim de noite. estava no ponto de ônibus com uma carga imensa nas costas, primeiro pela tristeza de que mais um final de semana se encerrava e segundo porque esperava um ônibus lotado, visto que ponto localizava-se na metade do trajeto, mas para “sorte” minha havia dois bancos inteiramente vagos. penso em sentar no que estava em frente ao cobrador, mas acabo sentado no exatamente atrás. observar o caminho pela janela não me é um dos passatempos favoritos, por isso abro o livro “os restos mortais” do sabino, recém adquirido e começo ávido a leitura.
três paradas depois entra no ônibus uma figura muito peculiar, observo de rabo de olho. um rapaz de aproximadamente vinte anos, pés-descalços, vestimentas simples e uma pasta amarela na mão. neste momento o banco da frente já se encontra ocupado por uma senhora na janela e uma moça faceira ao lado. após passar com dificuldade por debaixo da roleta o rapaz para no meio do ônibus e pendura a bolsa amarela na alavanca vermelha junto a janela, alavanca essa que se acionada deve fazer a janela sair inteira abrindo espaço para que os passageiros escapem durante um incêndio ou acidente. penso comigo: se pendurou a bolsa certamente não sentará no único banco vago, ou seja, ao meu lado. continuo a observar agora mais aliviado.
num movimento brusco pega sua bolsa amarela e senta ao meu lado. finjo não prestar atenção, permaneço imóvel como se estivesse enfeitiçado por sabino, mas a verdade é que estou patinando no mesmo parágrafo desde que vi os pés descalços.
do nada começa a falar palavras desconexas, agora nosso banco é a atração do ônibus. depois a cada dois ou três minutos cospe no chão e passa o pé em cima, nos intervalos do cuspe tira secreção do nariz e passa nas costas do banco da frente, fico com a impressão que tenha passado também nos cabelos da moça. neste momento detém a minha total atenção.
quando abre a pasta amarela consigo ver alguns papéis amassados e o que parecia uma peça de roupa. foi um final de semana quente, a noite estava abafada e as janelas do ônibus abertas não davam vencimento, mas ele tinha uma solução, tirou da pasta amarela uma garrafa 600ml com água congelada, abriu e sorveu o pouco do líquido. com a garrafa fechada começa a bater no banco da frente a fim de quebrar o gelo e obter mais água. na minha testa dançava uma gosta de suor, nem tanto pelo calor, mas pela situação toda.
tomo uma decisão: não importa o que faça, podes plantar cambalhota, defecar no chão, não irá me afetar. reato meu casamento com sabino agora mais determinado.
não era um livro longo, quarenta e poucas páginas em letra grande.
de repente escuto uma pergunta:
- que livro é esse?
- um livro de história, repondo.
fica satisfeito com minha resposta, segue cuspindo no chão e tudo o mais e eu sigo na leitura. viro a página e me deparo com uma cartilha, destas que vinham nos livros antigos, com questões de interpretação e informações sobre o autor e sua obra.
outra pergunta:
- o que é isso?
- venho dentro do livro, digo a ele.
ofereço a cartilha como quem diz “quer ver?”, ele pega, abre, observa a foto do sabino em branco em preto e depois me devolve. fico com a impressão que não sabia ler.
mais algumas paradas, outras batidas com a garrafa, outras palavras desconexas e, do nada, se levanta e desce do ônibus apressadamente.
depois disso o cobrador meu olha, a moça e a senhora do banco da frente se viram e também me olham, sinto os demais olhos na minha nuca, todos como se implorassem por algum comentário, uma opinião, que eu não tinha.
naquele momento, sem saber o que pensar - menos o que dizer, me sentia como o personagem do livro, só queria que tudo terminasse o quanto antes, da mesma forma que ele deveria olhar para os restos mortais que lhe cabiam eu permanecia hipnotizado pela garrafa, descongelando, ao meu lado, pelas paradas que me restavam.
três paradas depois entra no ônibus uma figura muito peculiar, observo de rabo de olho. um rapaz de aproximadamente vinte anos, pés-descalços, vestimentas simples e uma pasta amarela na mão. neste momento o banco da frente já se encontra ocupado por uma senhora na janela e uma moça faceira ao lado. após passar com dificuldade por debaixo da roleta o rapaz para no meio do ônibus e pendura a bolsa amarela na alavanca vermelha junto a janela, alavanca essa que se acionada deve fazer a janela sair inteira abrindo espaço para que os passageiros escapem durante um incêndio ou acidente. penso comigo: se pendurou a bolsa certamente não sentará no único banco vago, ou seja, ao meu lado. continuo a observar agora mais aliviado.
num movimento brusco pega sua bolsa amarela e senta ao meu lado. finjo não prestar atenção, permaneço imóvel como se estivesse enfeitiçado por sabino, mas a verdade é que estou patinando no mesmo parágrafo desde que vi os pés descalços.
do nada começa a falar palavras desconexas, agora nosso banco é a atração do ônibus. depois a cada dois ou três minutos cospe no chão e passa o pé em cima, nos intervalos do cuspe tira secreção do nariz e passa nas costas do banco da frente, fico com a impressão que tenha passado também nos cabelos da moça. neste momento detém a minha total atenção.
quando abre a pasta amarela consigo ver alguns papéis amassados e o que parecia uma peça de roupa. foi um final de semana quente, a noite estava abafada e as janelas do ônibus abertas não davam vencimento, mas ele tinha uma solução, tirou da pasta amarela uma garrafa 600ml com água congelada, abriu e sorveu o pouco do líquido. com a garrafa fechada começa a bater no banco da frente a fim de quebrar o gelo e obter mais água. na minha testa dançava uma gosta de suor, nem tanto pelo calor, mas pela situação toda.
tomo uma decisão: não importa o que faça, podes plantar cambalhota, defecar no chão, não irá me afetar. reato meu casamento com sabino agora mais determinado.
não era um livro longo, quarenta e poucas páginas em letra grande.
de repente escuto uma pergunta:
- que livro é esse?
- um livro de história, repondo.
fica satisfeito com minha resposta, segue cuspindo no chão e tudo o mais e eu sigo na leitura. viro a página e me deparo com uma cartilha, destas que vinham nos livros antigos, com questões de interpretação e informações sobre o autor e sua obra.
outra pergunta:
- o que é isso?
- venho dentro do livro, digo a ele.
ofereço a cartilha como quem diz “quer ver?”, ele pega, abre, observa a foto do sabino em branco em preto e depois me devolve. fico com a impressão que não sabia ler.
mais algumas paradas, outras batidas com a garrafa, outras palavras desconexas e, do nada, se levanta e desce do ônibus apressadamente.
depois disso o cobrador meu olha, a moça e a senhora do banco da frente se viram e também me olham, sinto os demais olhos na minha nuca, todos como se implorassem por algum comentário, uma opinião, que eu não tinha.
naquele momento, sem saber o que pensar - menos o que dizer, me sentia como o personagem do livro, só queria que tudo terminasse o quanto antes, da mesma forma que ele deveria olhar para os restos mortais que lhe cabiam eu permanecia hipnotizado pela garrafa, descongelando, ao meu lado, pelas paradas que me restavam.


























